segunda-feira, 23 de abril de 2007

Desenvolvimento e Conservação Ambiental: Políticas Sócio-Ambientais do Governo do Acre

Por: Horácio Antunes de Sant’Ana Júnior, da Universidade Federal do Maranhão RESUMO Este trabalho é fruto do subprojeto “O caso do Acre”, inserido na pesquisa “Projetos socioambientais na Amazônia brasileira – Atores e trajetórias”. O Governo estadual do Acre, desde 1999 assume oficialmente o desenvolvimento sustentável como eixo de suas políticas governamentais, através da articulação de conservação ambiental com exploração econômica da floresta e garantia de condições de vida às populações agro-extrativistas. A pesquisa revela que no interior da equipe de governo encontra-se uma divisão entre sustentabilistas e desenvolvimentistas, indicando posições que reivindicam uma ênfase maior das políticas governamentais na defesa e conservação ambiental ou no desenvolvimento sócio-econômico, respectivamente. O interesse da pesquisa está na percepção de como as posições políticas dos vários agentes governamentais interferem nas ações de governo e como estas incorporam, ou não, as questões sócio-ambientais, com destaque para aquelas referentes à Reservas Extrativistas. A investigação sobre a divisão entre sustentabilistas e desenvolvimentistas, seus confrontos e colaborações, seus vínculos com os vários setores sociais, os resultados obtidos na formulação e execução das políticas governamentais, pretende ser um instrumento para aprofundar o debate sobre socioambientalismo e desenvolvimento. Desde 1999, venho estudando as políticas sócio-ambientais do Governo Estadual do Acre, sua relação com os movimentos sociais, bem como, com o projeto de desenvolvimento e integração nacional da Região Amazônica , formulado pelos Governos Militares do período de 1964 a 1985. O estudo sobre políticas sócio-ambientais no governo acreano teve como motivação inicial a percepção de que, a partir de 1999, o governo estadual passou a ser conduzido, majoritariamente, por um grupo de militantes partidários oriundos e/ou vinculados, direta ou indiretamente, a movimentos sociais e de defesa ambiental, cuja expressão de maior visibilidade nacional e internacional é o movimento de seringueiros. Autodenominando-se Governo da Floresta e assumindo como eixo orientador da ação governamental a florestania , este grupo passou a governar o Acre graças à vitória eleitoral da Frente Popular do Acre, nas eleições de 1998. Naquele momento, tratava-se de uma frente partidária composta por doze partidos (PT, PSDB, PC do B, PMN, PL, PDT, PPS, PV, PTB, PT do B, PSB e PSL), que lançou as candidaturas do engenheiro florestal Jorge Viana (PT) e de Edson Simões Cadaxo (PSDB) para Governador e Vice-Governador, respectivamente. Nas eleições de 2002, a Frente foi recomposta, agora com apenas sete partidos (PT, PV, PT do B, PMN, PC do B, PL, PSDC) e sem a presença do PSDB, que havia indicado o Vice na composição anterior. Arnóbio Marques de Almeida Júnior – Binho, do PT, foi o candidato a Vice-Governador. Jorge Viana foi reeleito para o mandato de 2003-2006. Nestas duas eleições, a Frente Popular contou com o apoio de parte significativa dos movimentos sindicais, populares e ambientais atuantes no Acre, apresentando-se como a possibilidade de implementação de propostas e políticas alternativas que pretendem articular critérios ambientais e medidas de crescimento econômico para o Estado, combinados no conceito de desenvolvimento sustentável. Outra motivação para o estudo, de fundo histórico, foi encontrada na constatação de que somente no final do século XIX, em função da implantação da empresa seringalista, o Acre foi ocupado e incorporado ao mundo moderno, numa iniciativa que visava o fornecimento de matéria-prima necessária aos pólos industriais mais dinâmicos. A forma e o movimento histórico de incorporação do Acre oferecem elementos para aproximar seu estudo da discussão sociológica sobre a modernidade, incorporando conceitos e noções produzidos no âmbito desta discussão . Além disso, as lutas sociais intensificadas a partir da década de 1970, como reação às políticas de desenvolvimento implementadas por sucessivos governos estaduais e federais, provocaram o surgimento do movimento de seringueiros que, na busca de evitar a derrubada da floresta, contou com muitos aliados e aspectos conjunturais favoráveis. Conseguiu, assim, um nível bastante significativo de organização, de capacidade propositiva, de articulação com outras forças sociais e de obtenção de resultados. Os seringueiros ampliaram a eficácia de seu movimento quando passaram a incorporar, em meados dos anos 1980, o discurso ambientalista para justificar suas lutas e como instrumento de consolidação de alianças políticas para além da região amazônica, articulando seus interesses particulares e locais com características universais e mobilizações globais. A busca de entendimento das relações entre o Governo da Floresta, suas políticas sócio-ambientais e o movimento social não pode deixar de considerar a influência definitiva que as políticas de desenvolvimento implementadas pelos governos militares exerceram no Acre e na Amazônia. O projeto de desenvolvimento amazônico dos governos militares tomou forma através de grandes projetos de infra-estrutura (estradas, ferrovias, aeroportos, hidroelétricas, centro espacial) e de exploração direta de potenciais econômicos, principalmente, vinculados à mineração, à agricultura, à pecuária e à atividade madeireira (BUNKER, 1988; CARDOSO e MÜLLER, 1977; IANNI, 1979; SANT’ANA JÚNIOR, 2004). A implementação destes projetos não se restringe ao período dos governos responsáveis por sua elaboração, mas seus desdobramentos e conseqüências sociais e ambientais chegam aos dias atuais. Esta relação/tensão entre políticas sócio-ambientais e projetos de desenvolvimento e integração amazônica é foco da pesquisa, na medida em que permite atualizar o uso das noções de modernidade, desenvolvimento e desenvolvimento sustentável presentes nas formulações sócio-ambientais acreanas. Neste artigo, centraremos a atenção nas principais políticas sócio-ambientais do Governo e na tensão em torno das noções de desenvolvimento e sustentabilidade existente no interior da equipe de governo, encarregada, em última instância, de formular e executar estas políticas. 1. Primeiras medidas do Governo da Floresta e o socioambientalismo No percurso da pesquisa, foi possível, constatar, no discurso dos agentes governamentais, a tendência dominante de defender a idéia de que há um íntimo relacionamento entre as políticas públicas estaduais e a luta dos seringueiros e demais trabalhadores do campo, ou mesmo, de que este governo seria herdeiro das lutas sociais acreanas, em especial, aquelas protagonizadas pelo movimento dos seringueiros. Isto pode ser exemplificado na fala do Prof. Angelim : O Acre tem um movimento social no campo muito forte, que começou com Wilson Pinheiro em Brasiléia, com Chico Mendes em Xapuri, em Tarauacá, em Cruzeiro do Sul, em Feijó. O Governo tem responsabilidade e preocupação de dar para essas populações do campo condições dignas de sobrevivência, através de parcerias que possibilitem o aumento e circulação da produção (entrevista realizada em 23/11/2000). No mesmo sentido, examinando a relação entre as forças políticas e sociais que compuseram Governo, Toinho Alves , afirma a herança da luta dos seringueiros compunha seu núcleo de poder: Nós temos uma coligação muito grande no Governo do Estado, na qual este setor com interesse na floresta, que vem dessa luta dos povos da floresta, constitui o núcleo de maior densidade no interior do governo. Não de maioria física, mas de maior densidade na elaboração do projeto do governo (entrevista realizada em 05/12/2000). Logo no início do primeiro mandato do Governo da Floresta, os termos conservação ambiental e povos da floresta (índios, seringueiros, ribeirinhos), passam a constituir-se em presença constante no discurso governamental. Com a finalidade de sinalizar as posições socioambientais do novo Governo, foram adotados o neologismo florestania e o slogan Governo da Floresta (ver notas 4 e 5). Segundo Toinho Alves, “Governo da Floresta é símbolo de que esse núcleo dos herdeiros da luta dos povos da floresta é o núcleo de maior densidade no interior desse Governo” (entrevista realizada em 05/12/2000). No organograma de Governo, foi criada a Secretaria Executiva de Floresta e Extrativismo, apresentada como um dos instrumentos para garantir que se efetivasse a desejada mudança no vetor de desenvolvimento do Estado, que estaria se voltando para a exploração racional dos recursos naturais. Carlos Vicente afirma que: Nunca houve na estrutura do Estado nenhuma instituição que estudasse estratégias para trabalhar as áreas florestais. A Secretaria de Floresta foi criada para que o Estado se oriente para a floresta, para produzir políticas públicas para 90% de seu território, que até então era visto como empecilho para o desenvolvimento (entrevista realizada em 12/12/2000). Analisando as motivações para reestruturação do organograma do Governo e, especialmente, a criação da Secretaria Executiva de Florestas e Extrativismo, Prof. Angelim argumenta que: O Governo parte do diagnóstico de que o modelo de desenvolvimento anterior levou a perda de milhões de dólares na exportação de madeira em toras e de que a falta de incentivo levou a queda assustadora da produção de borracha, provocando êxodo das florestas, com as famílias de seringueiros vindo para as periferias das cidades, provocando marginalização, prostituição e alcoolismo de seus membros e o aumento da violência urbana. Ao assumir, o Governo provocou um rearranjo da estrutura organizacional do Estado, criou a Secretaria de Florestas e Extrativismo, voltada exclusivamente para o setor extrativista... A Secretaria de Extrativismo não é a mais importante, mas tem a função de resgatar o extrativismo, que faz parte da história do Acre, implantando a florestania (entrevista realizada em 23/11/2000). Paralelamente à implementação do novo organograma, o Governo definiu ser necessário obter um diagnóstico e análise aprofundados da situação social, econômica, territorial, ambiental, biológica, do Acre, que norteassem o planejamento e a execução de políticas públicas. Assim, logo no início da gestão, procurou realizar o ZEE (Zoneamento Econômico-Ecológico) . Desde 1990, através do Decreto Presidencial nº 99.540, estava prevista a realização do ZEE (Zoneamento Ecológico-Econômico do Território Nacional), como um instrumento para gestão territorial. O decreto previa que os trabalhos de ZEE seriam executados pelo Governo Federal, ao nível macrorregional, e pelos Estados, ao nível mais detalhado. Definiu, ainda, a Amazônia Legal como área prioritária para realização do ZEE. Segundo Maria Janete Sousa dos Santos, coordenadora do GTS/ZEE/AC (Grupo Técnico de Sistematização do Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre), o Governador, quando assumiu o mandato, priorizou o Zoneamento como instrumento de ordenamento territorial do Estado e determinou que qualquer política de Governo deveria utilizá-lo como subsídio. Em abril de 1999, foi criado e lançado o ZEE/AC (Programa Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre) e foi criada a CEZEE (Comissão Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico), composta por oito câmaras setoriais, envolvendo os mais variados setores da sociedade organizada. No início de 2000, após um amplo processo de pesquisa e discussão pública dos resultados alcançados foram publicados os três volumes resultantes da primeira fase do ZEE/AC. Ainda, como parte das primeiras medidas de Governo, foi enviado para a Assembléia Legislativa, em 13/01/1999, um Projeto de Lei, denominada Lei Chico Mendes, que previa o pagamento de subsídio para a produção de borracha diretamente aos seringueiros, a serem repassados através das associações e cooperativas (Ementário da Assembléia Legislativa do Acre, 1999). Segundo cálculos da Secretaria de Floresta e Extrativismo, o subsídio pago pela Lei Chico Mendes permitiria aumentar significativamente o ganho do produtor direto; conseguiria ser auto-sustentável na medida em que, com o aumento da produção, provocaria o aumento direto de arrecadação de ICMS e, reativando a economia local, permitiria o aumento da arrecadação total de impostos. Carlos Vicente afirma que: Para dar um sinal para o povo da floresta de que o Governo não era só discurso, logo no começo do mandato, foi criada a subvenção da borracha, elevando artificialmente seu preço, depois de passar três meses conversando com três mil extrativistas para definir como regulamentar, garantindo que os seringueiros recebessem diretamente o benefício, com o menor preço de transação possível (entrevista realizada em 12/12/2000). A insistência em frisar a predominância do que chamam de opção pela floresta, isto é, da predominância de pessoas com posições conservacionistas (ver nota 9) no núcleo do Governo é recorrente em quase todas as entrevistas realizadas com componentes da equipe governamental. Gilberto Siqueira , Secretário de Estado de Planejamento e Coordenação, enfatizando a possibilidade de relação entre meio ambiente conservado e produção econômica, afirma que: A alma do Governo é a questão ambiental. A questão ambiental no Acre é muito importante porque é a questão da vida dessa cultura e dessa civilização do Ocidente da Amazônia ... Na Amazônia a economia está no próprio ambiente. Quando os seringueiros falavam de reforma agrária, o que eles queriam era o direito de uso de bem coletivo que é a natureza. Esse uso é o uso econômico, numa relação de troca com a sociedade. Este é o ponto da questão ambiental na Acre... O Governo orienta, governa e normatiza toda essa coisa... Todas as ações do Governo partem do pressuposto ambiental (entrevista realizada em 20/12/2000). 2. O Governo da Floresta e o desenvolvimento sustentável O movimento ambientalista internacional produziu, nas últimas décadas, a noção pouco precisa e cada vez mais difundida de desenvolvimento sustentável, que se consagrou na Conferência Mundial do Meio Ambiente, no Rio de Janeiro, em 1992. Na campanha eleitoral de 1998, o documento “A vida vai melhorar” (FRENTE POPULAR DO ACRE, 1998), apresentado como Programa de Governo pela coligação que ganhou a eleição, acatou uma demanda presente no âmbito dos movimentos sociais e assumiu como eixo central de sua proposta o desenvolvimento sustentável. Contudo, como se trata de uma noção pouco precisa, suscita inúmeros confrontos na busca de estabelecer seu significado. Ao se tornar eixo de Governo, exige uma explicitação de qual o entendimento está sendo adotado, fazendo emergir posições diferenciadas dentre aqueles que a enunciam. De acordo com Francisco Afonso Neponuceno, o Carioca , ... o modelo de desenvolvimento do governo atual pode ser afirmado mais por aquilo que ele não é do que pelo que pode vir a ser. No Governo existe consenso quanto ao que não é o modelo e divergências quanto ao que é. Ele não é predatório; não tem a idéia da floresta como empecilho, mas como progresso (progresso entendido não como fruto do desenvolvimento, visão típica do século XIX); deve ter visão ecológica do mundo, de equilíbrio do mundo. E um modelo que está em gestação. Sabe que não quer floresta devastada, seringueiro habitando a zona urbana, prefeituras sem condições de enfrentar demandas sociais acarretadas pela vinda em massa de seringueiros. A ausência de sistematizações ou de experiências concretas governamentais de esquerda, na Amazônia, deixou o Governo sem referência concreta de como trabalhar políticas públicas voltadas para a visão utópica do grupo que o compõe... Assim, não existe uma coisa acabada, o que permite a incorporação de novos ensinamentos e criatividade (entrevista realizada em 24/11/2000). Partilhando desta visão, o Prof. Binho afirma que ... nós não temos um projeto revolucionário para a Amazônia, nós não temos uma proposta econômica detalhada, nós não temos nada detalhado. Eu acho que o nosso projeto é ainda 90% sonho e 10% projeto pragmático, real e isso precisa aprofundar mais (entrevista realizada em 07/12/2000). Quando se discute o projeto de desenvolvimento que está sendo implantado no Acre, Toinho Alves apresenta uma concepção um pouco mais elaborada. Porém, esta posição está em disputa no âmbito do Governo, como veremos a seguir. Na concepção que apresenta há um confronto direto com a visão antropocêntrica típica do modo de pensar ocidental. Resultante do aprendizado junto aos povos da floresta, segundo o próprio Toinho, sua concepção supõe a inversão da noção de controle racional da natureza, da significação imaginária da modernidade, que deve ser substituída pelas noções de convivência e respeito. Toinho define o projeto de desenvolvimento que atribui ao Governo: Em primeiro lugar, reconhecimento da primazia indígena, existem povos que estão aqui e que conhecem a nossa região e cuja ciência deve ser respeitada. Esse é o ponto um. Mas, antes dele, tem um ponto zero. É o de que o antropocentrismo deve ser superado, o homem é parte da natureza, ele não é dono da natureza, ele não é toda a natureza, ele é uma parte dela... Todos os habitantes do planeta têm direito de viver e têm que ser ouvidos e têm que ser escutados... Esse novo contrato natural, é assim que está sendo chamado por aí afora, que transcende e abarca o contrato social, é o ponto zero, o ponto primordial do nosso pensamento... o ponto um seria a primazia dos povos indígenas e a validade de seu conhecimento e da sua cultura. O ponto dois seria talvez o reconhecimento dos direitos das populações... que tradicionalmente passaram a habitar essa região: seringueiros, ribeirinhos, extrativistas de uma maneira geral, que são os povos da floresta... Estes povos existem e podem e devem existir da maneira que eles quiserem existir. Então, esse ponto dos direitos de cidadania, ou melhor, dos direitos de florestania, esse é essencial. Agora, aí no diálogo com a civilização, a gente vai construindo alguns consensos. Um deles é sustentabilidade, serve para o planeta inteiro e serve para nós... (entrevista realizada em 05/12/2000). Segundo Carlos Vicente, o projeto de desenvolvimento sustentado do Estado abarca cinco dimenões: social, política, ambiental, econômica e cultural (entrevista realizada em 12/12/2000). Toinho Alves explica as cinco dimensões de sustentabilidade que norteiam a atuação do Governo: ...sustentabilidade ambiental, óbvio; sustentabilidade econômica, para que a gente possa viver; sustentabilidade social, porque não adianta ser um projeto ecologicamente sustentável, economicamente viável, mas que expulsa populações e manda elas serem periféricas nas cidades, portanto, criando um risco social que vai acabar até com a viabilidade econômica e ambiental, então, é necessário que seja sustentável socialmente também, distribua renda, acabe com a miséria, promova dignidade das pessoas; mas só que é necessário, para que isso aconteça, que o projeto seja politicamente sustentável, que todo mundo participe, que ele seja um projeto não de um governo mas de um povo inteiro... Não menos importante, sustentabilidade cultural... O nosso check list das sustentabilidades, ao levar em conta a sustentabilidade cultural, está querendo dizer o seguinte: nós temos identidade, esta identidade é produto de uma longa caminhada da humanidade, ela não pode ser desprezada, ela não pode ser desconhecida, ela é fruto de muito sofrimento. Cada uma das nossas cicatrizes tem que ser respeitada, cada uma das línguas que nós falamos aqui tem que ser preservada, cada um dos hábitos, dos costumes, do tipo de comportamento tem que ser considerado porque isso aqui foi a nossa sobrevivência, nós sobrevivemos assim (entrevista realizada em 05/12/2000). 3. Desenvolvimentistas e sustentabilistas A despeito de certa unanimidade em torno do desenvolvimento sustentável como meta da ação governamental, durante a realização do trabalho de campo, na entrevista com Célia Pedrina , ficou evidente que na equipe de Governo existe uma divisão entre duas posições gerais, cujos defensores são reconhecidos, respectivamente, como “sustentabilistas” e “desenvolvimentistas”. Diante desta evidência, segui perguntando aos membros da equipe do Governo se esta divisão realmente existia e se estas denominações eram reconhecidas por todos. Mesmos apresentado nuances de interpretação quanto ao caráter da divisão, todos os entrevistados concordaram com a existência das duas posições no Governo. Célia apresentou-me a polêmica da seguinte forma: Dentro do Governo, existem os desenvolvimentistas. Não há unanimidade com relação à questão ambiental e existem secretários que acham que a ação do Governo deveria passar somente pelo desenvolvimento. Até quando defendem o desenvolvimento sustentável, é só com relação à questão econômica. Hoje, desenvolvimento sustentável não significa mais desenvolvimento ambiental, privilegiando a ecologia, a preservação, manejo. Para os desenvolvimentistas, a sustentabilidade do desenvolvimento tem uma conotação mais forte, com criação de indústrias, empresas... existem os sustentabilistas (que submetem a produção de riqueza ao manejo sustentável e preservação) e os desenvolvimentistas (que partem do capital pelo capital e vêm a Amazônia como uma grande riqueza de cifrões, as águas e os produtos florestais são transformados em cifrões), que brigam para ver qual é o grupo que é o dono do domínio da melhor definição de sustentável. O grande embate que se dá, hoje, é o que quer dizer esse sustentável, se é sustentável econômico, em cifras, ou é sustentável economicamente viável, com manejo e conservação (entrevista realizada em 25/11/2000). Procurando caracterizar os dois grupos que comporiam o Governo, e tentando demonstrar que suas posições não são lineares e homogêneas e que, pelo contrário, se diferem bastante, ela afirma: Existem desenvolvimentistas arraigados no movimento social e outros que não têm nenhuma relação, e até horror a povo. Existem sustentabilistas, do ponto de vista da conservação, bastante arraigados no movimento social e outros que não conseguem se inserir no movimento social (entrevista realizada em 25/11/2000). A relação entre desenvolvimentistas e sustentabilistas é tão difícil que Toinho Alves se refere a uma “esquizofrenia” na equipe de Governo e aponta, ele mesmo, para a continuidade, a experiência acumulada do grupo e, por outro, para a novidade que representa a “esquizofrenia”, que se pode paralisar a ação governamental, pode também expressar uma experiência nova da gestão, com valores de justiça, proteção ambiental, sobrevivência econômica na floresta. Toinho Alves posiciona-se: Acho que podem ser considerados sustentabilistas e desenvolvimentistas. Mas, acho que o Governo, talvez agora, esteja começando a dar os primeiros passos para superar a sua esquizofrenia. Porque essa divisão permaneceu durante a fase inicial do Governo... Eu acho que nós temos uma... metade é Descartes e a outra metade é Pascal, metade de nós é materialista a outra metade é espiritualista, metade é engenheiro a outra metade é artista. Então, a gente tem, muitas vezes, sido paralisado, até, por essa divisão interna. Porque isso atrasa muito na hora de definir o que queremos. Na hora de fazer um projeto, quando sentam duas pessoas de orientação diferente, a briga é muito grande até que se chegue a um consenso sobre o que se deve ser colocado no projeto. Porque um acha que o dinheiro deve ser usado para ser financiado o asfalto e o outro acha que o dinheiro deve ser usado para ser financiado o barco (entrevista realizada em 05/12/2000). Ao dar seqüência ao seu raciocínio, Alves começa a apresentar um mapeamento das posições no interior do Governo e expõe claramente sua visão sobre qual deve ser a dominante em momentos chaves de decisão: Mas eu acho que em algum momento, e esse momento já chegou, o Governo vai ter que fazer escolhas sobre, afinal de contas, o que somos, qual a nossa identidade. Nessas escolhas eu acho que as duas vertentes que formam o Governo são necessárias, são duas pernas para caminhar. No entanto, acho que nós não podemos fugir do fato de que o projeto adequado para o ambiente em que vivemos é um projeto essencialmente sustentabilista. Nós temos que fazer uma opção clara pelo desenvolvimento, no entanto, em alguns momentos, sem dúvida, nós temos que optar pela sustentabilidade (entrevista realizada em 05/12/2000). Para outros membros do Governo, no entanto, não se trata de uma dicotomia de uma postura bem definida entre Pascal e Descarte, entre dois. Trata-se de uma segmentação maior, feita de posições que variam de forma matizada entre extremos, de diferenças e, também talvez de marcas de orientação entre os sustentabilistas e os desenvolvimentistas, sem se confundir com um nem com o outro. Isto pode ser percebido na fala do Professor Binho: A divisão entre sustentabilistas e desenvolvimentistas existe em um grau muito positivo. O que sei, hoje, aprendi com pessoas muito diferentes: com Toinho, que pode ser colocado num extremo da divisão, ou com Gilberto Siqueira, que é o outro extremo, ou com Mary Allegretti , que não se assemelha com nenhum dos dois, ou com o Governador que não se assemelha com nenhum dos três. A diversidade do Governo é muito produtiva, pois está baseada em relações muito fraternas, sem má fé, mas com grandes diferenças. Por isso, não existe um projeto consensual, existe um projeto em formação, um sonho comum para o Toinho, para o Gilberto, para a Mary e para o Jorge (entrevista realizada em 07/12/2000). 4. Continuando... A constatação da presença de desenvolvimentistas e sustentabilistas no Governo do Acre abre uma possibilidade de análise que transcende o próprio Governo estudado. Esta é uma discussão que pode ser expandida para boa parte da reflexão sobre o processo de desenvolvimento desejável para o século que estamos iniciando. Perceber com maior clareza as nuances caracterizadoras de cada posição pode ser uma boa forma de colocar em questão a própria noção de desenvolvimento sustentável e sua efetivação em forma de políticas públicas ou de ação social e ambiental de grupos privados, movimentos sociais ou organizações não-governamentais. No correr da pesquisa, este tema surge como um desafio, cujo enfrentamento exige um esforço de busca de apreensão dos desdobramentos da ação do Governo da Floresta até o final de seu segundo mandato, procurando detectar a continuidade ou não do daquele debate, a alteração ou não da posição de seus principais atores na equipe governamental e o alcance das políticas socioambientais efetivamente implementadas e seu significado tanto para as populações alvo quanto para o aprimoramento dos arranjos conceituais nelas envolvidos. Até agosto de 2004 (última etapa de trabalho de campo da pesquisa), pudemos constatar algumas alterações nas dinâmicas do Governo acreano que podem ser ajudar a avançar no estudo. A Secretaria Executiva de Floresta e Extrativismo, anunciada no início do primeiro mandato, foi convertida em Secretaria de Floresta, que compõe a Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Econômico-Sustentável. Segundo Luiz da Silva Pereira , a mudança no organograma do Governo foi acompanhada de alterações na política florestal e tornou a Secretaria mais distante dos agentes sociais e econômicos da floresta, frustrando expectativas criadas anteriormente (entrevista realizada em 17/08/2004). Quanto ao Zoneamento Econômico e Ecológico, apesar da conclusão rápida da primeira etapa de sua realização, em agosto de 2004 pude constatar que seus desdobramentos caminhavam lentamente, e não havia ainda perspectiva de conclusão da segunda fase. A Lei Chico Mendes, que visava garantir o subsídio direto aos seringueiros para produção de borracha, encontrou vários problemas em sua implantação, como atraso na chegada dos recursos dos subsídios para os seringueiros e demora em seu nível de abrangência territorial. Entrevistando Maria Darlene Braga Martins e João Maciel de Araújo (entrevista realizada em 24/08/2204) e Rosildo Rodrigues de Freitas (entrevista realizada em 18/08/2004) pude perceber muita crítica com relação à Lei e à sua efetividade como instrumento de garantia de remuneração à atividade extrativa, de forma a reter os seringueiros na floresta e a atrair aqueles que estão na cidade (como afirmava a justificativa da Lei). Rosildo ainda chama atenção para a pressão sobre a floresta que a atividade pecuária tem exercido no interior das Reservas Extratistas, na medida que parte dos seringueiros vêem nesta atividade a possibilidade de garantir retorno monetário mais imediato para suas atividades. Enfim, a questão da sustentabilidade das políticas governamentais do Governo da Floresta continua em aberto. Numa conjuntura nacional de retomada do crescimento econômico, as preocupações com as pressões ambientais e suas conseqüências sociais tomam novas dimensões e, no caso do Acre, exigem atenção redobrada na busca de compatibilização entre discurso oficial e práticas governamentais. BIBLIOGRAFIA ACRE. Governo do Estado do Acre. Programa Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. Zoneamento ecológico-econômico: aspectos socioeconômicos e ocupação territorial – documento final. Rio Branco: SECTMA, 2000. V. 2. __________. Governo do Estado do Acre. Programa Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. Zoneamento ecológico-econômico: indicativos para a gestão territorial do Acre – documento final. Rio Branco: SECTMA, 2000. V. 3. __________. Governo do Estado do Acre. Programa Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. Zoneamento ecológico-econômico: recursos naturais e meio ambiente – documento final. Rio Branco: SECTMA, 2000. V. 1. ACSELRAD, Henri. Políticas Ambientais e Construção Democrática. In: VIANA, Gilney, SILVA, Marina e DINIZ, Nilo (Org.). O desafio da sustentabilidade: um debate socioambiental no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001. ALMEIDA, Mauro Willian Barbosa de e CUNHA, Manuela Carneiro da. Populações tradicionais e conservação ambiental. In: CAPOBIANCO, João Paulo Ribeiro, [et.al.] (org.) Biodiversidade na Amazônia Brasileira: avaliação e ações prioritárias para conservação, uso sustentável e repartição de benefícios. São Paulo: Estação Liberdade: Instituto Socioambiental, 2001, p.92-107. AQUIRI, COMITÊ CHICO MENDES, GTA/AC. Políticas públicas coerentes para um Acre sustentável: estratégias de atuação das ONG’s e Movimentos Sociais. Rio Branco: Poronga, 1998. BUNKER, Stephen G. Underdeveloping the Amazon; Extraction, Unequal Exchange, and the Failure of the Modern State. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1988. CARDOSO, Fernando Henrique e MÜLLER, Geraldo. Amazônia: expansão do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1977. CASTRO, Edna e PINTON, Florence (Org.). Faces do trópico úmido: conceitos e novas questões sobre desenvolvimento e meio ambiente. Belém: CEJUP: UFPA-NAEA, 1997. COSTA SOBRINHO, Pedro Vicente. Capital e trabalho na Amazônia Ocidental: contribuição à história social e às lutas sindicais no Acre. São Paulo: Cortez; Rio Branco, AC: Universidade Federal do Acre, 1992. DUARTE, Élio Garcia. Conflitos pela terra no Acre; a resistência dos seringueiros de Xapuri. Rio Branco: Casa da Amazônia, 1987. FERNANDES, Marcos Inácio. O PT no Acre: A construção de uma terceira via. Natal: UFRN, 1999. Dissertação de Mestrado. FRENTE POPULAR DO ACRE. A vida vai melhorar: Plano de Governo. Rio Branco: 1998. Mimeo. IANNI, Octávio. Colonização e contra-reforma agrária na Amazônia. Petrópolis: Vozes, 1979. LÉNA, Philippe. As políticas de desenvolvimento sustentável para a Amazônia: problemas e contradições. Rio de Janeiro, 2002. Texto mimeo. PAULA, Elder Andrade de. Seringueiros e Sindicatos: um povo da floresta em busca da liberdade. Rio de Janeiro: CPDA/UFRRJ, 1991. Dissertação de Mestrado. RÊGO, José Fernandes do. Amazônia: do extrativismo ao neoextrativismo. Rio Branco: UFAC, s/d. Texto mimeo. SILVA, José Porfiro. Preservação e sutileza: a política de desenvolvimento do Governo do Acre (1984/1990). Rio de Janeiro: CPDA/UFRRJ, 1998. Dissertação de Mestrado. STOCKINGER, Gottfried. A reestruturação de relações tradicionais na Amazônia numa era de modernização forçada (1960-1980). In: COSTA, Maria José Jackson (Org.). Sociologia na Amazônia: debates teóricos e experiências de pesquisa. Belém: Universidade Federal do Pará, 2001. VIANA, Gilney, SILVA, Marina e DINIZ, Nilo (Org.). O desafio da sustentabilidade: um debate socioambiental no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001. VIANA, Jorge e ALVES, Antônio. A República do Acre. In: Teoria e Debate. nº 15, jul/set 1991. pp 02-07.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

SOBRE A MINISSÉRIE DA GLOBO

Por: Marcos Vinícius Neves Entre a história e a ficção
Muito se falou, escreveu e discutiu sobre a minissérie “Amazônia...” nas últimas semanas. As opiniões variaram bastante, desde os que adoraram até os que odiaram. Até aí tudo normal. Entretanto, em relação a alguns aspectos as críticas foram exacerbadas, enquanto em relação a outros nada se falou. Cabe então perguntar: entre um extremo e outro, o que fica disso tudo? De todas as características de que se revestiu a minissérie “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, talvez a primeira e mais importante a ser considerada seja sua configuração como uma obra mista, meio ficcional, meio histórica. Por diversas vezes, durante a produção, ouvi a bendita frase: “Isso não é um documentário”. Pra minha cabeça de historiador, confesso que às vezes foi muito difícil conviver com a tal da “licença poética”. Apesar de que, tenho que confessar, eu mesmo gosto muito de vez em quando usar os recursos da ficção para contar histórias das quais se sabe muito pouco (sempre ressaltando o caráter ficcional dos textos, é claro). E a pratica revela que é muito mais fácil escrever ficção do que história. Ao simplesmente criar uma história, ficamos livres para imaginar qualquer coisa, pra desenhar personagens com as características necessárias pro desenrolar da trama que se quer contar, pra desenhar enredos verossímeis ou não.
Tratar da história é diferente. Requer muita pesquisa, implica em mergulhar em um universo onde a especulação é apenas um recurso para estabelecer perguntas, mas que não serve para respondê-las. É se sujeitar a um percurso que muitas vezes não depende da vontade do pesquisador, mas é determinada pela disponibilidade de fontes ou da consciência histórica de uma dada comunidade ou sociedade. E, é preciso admitir, frequentemente somos levados a constatações que contrariam o que acreditávamos no inicio do trabalho de pesquisa. Ou dito de outra forma, consigo escrever apenas uma página por hora quando o assunto é história, ao passo que as páginas fluem muito mais rapidamente quando me dedico à ficção. Essas questões nos ajudam a compreender um pouco melhor a trajetória percorrida durante a produção da minissérie em suas diversas fases, desde a pré-produção e construção de cenários, passando pela caracterização dos personagens e chegando à própria composição do roteiro final que foi gravado e levado ao ar.
Por exemplo, a área escolhida para a locação da cidade cenográfica de Puerto Alonso/Porto Acre é bem semelhante à condição geográfica da área em que essa cidade real foi fundada por bolivianos em 02 de janeiro de 1899. Entretanto a disposição dos cenários (prédios, torres, trincheiras e escadas) não possui relação direta com a situação da cidade histórica. Enquanto esta estava quase toda situada no alto do platô, a cidade cenográfica foi construída no barranco para se tornar mais “cênica”.
O mesmo pode ser dito em relação ao Palácio do Galvez que vimos na tela da televisão. Pelos poucos relatos históricos que chegaram até nós a coisa mais grandiosa do “Palácio” que Galvez mandou erguer para servir de sede ao seu governo era uma escadaria de seis degraus em alvenaria. Já na minissérie o palácio era realmente grandioso misturando elementos amazônicos e mouriscos (dada a origem espanhola de Galvez) numa livre interpretação cheia de referencias históricas, mas sem o rigor de uma reconstituição fiel. È preciso lembrar que para termos um espetáculo dramático são necessários elementos espetaculares e essa lógica norteou muitas decisões ao longo de toda a produção.
O mesmo pode ser considerado em relação aos personagens e as tramas que permearam toda a minissérie. Tivemos nesse campo uma mistura de personagens reais e outros criados pela imaginação da escritora ou adaptados das fontes consultadas por ela. O caso mais agudo dessa mistura talvez tenha sido o do núcleo familiar que agrupou o valente nordestino Bastião, sua mulher Angelina Gonçalves e seus filhos Delzuite e Bento. Enquanto Bastião evidentemente correspondia ao personagem Chico Bento do romance Terra caída de José Potiguara, com toda sua rudeza, honestidade e coragem, Angelina é um personagem histórico muito caro à sociedade acreana. Foi essa mulher que de fato enfrentou os bolivianos após o assassinato de seu marido na seqüência do primeiro combate da Volta da Empreza no qual Plácido de Castro foi derrotado pelos militares bolivianos em setembro de 1902.
E a minissérie contextualizou corretamente essa passagem da vida de Angelina. Apesar de que durante a produção da minissérie surgiram novas informações e documentos que realçaram ainda mais a participação de Angelina durante diversos episódios da Revolução Acreana e não apenas naquele descrito acima. Infelizmente essas novas informações não puderam ser aproveitadas na trama escrita por Glória Perez.
Quanto a Delzuite e Bento foram dois personagens criados livremente pela autora (salvo engano meu). Assim foi possível dar vazão através deles de histórias como a do “Boto” que serviu de álibi para o filho do coronel que ilude a ingênua filha do seringueiro. Enquanto que Bento acabou se constituindo no personagem mais importante de toda a minissérie. Ele foi o “Forrest Gump” de “Amazônia”, a testemunha ocular de todas as fases da história do Acre. A criança que migrou do nordeste para a Amazônia no final do século XIX, o jovem que serviu a Galvez e lutou ao lado de Plácido de Castro, o homem que testemunhou o drama dos soldados da borracha nos anos 40 e já velho foi companheiro de Wilson Pinheiro e Chico Mendes nos anos 70 e 80.
Um personagem secular que só a força da ficção seria capaz de salvar da morte ou da decrepitude da velhice. Mas mesmo com toda “licença poética” indispensável para engendrar tal possibilidade, um personagem necessário para interligar as três fases históricas percorridas pela minissérie.
A partir destas considerações iniciais podemos tirar algumas conclusões. É verdade que a ficção acabou de alguma forma limitando a história. Concordo com os que pensam que a primeira fase se estendeu demais, em especial graças à ênfase que o núcleo do cabaré da Lola acabou tendo em detrimento de outros núcleos da mesma fase. A autora perdeu tempo demais com personagens que contribuíram muito pouco pra trama como um todo (em que pese a beleza das atrizes desse núcleo).
Por outro lado, discordo radicalmente daqueles que procuraram caracterizar o tom geral da minissérie apenas pela presença de mulheres “degeneradas” na primeira fase. É preciso levar em consideração que esta fase da minissérie se passava entre o final do século XIX e início do século XX. Um período em que qualquer mulher que tentasse pensar ou expressar sua opinião era facilmente classificada como meretriz.
Não é de estranhar, portanto, que mulheres que ousassem contrariar o desejo de seus pais ou as normas da sociedade acabassem num cabaré como ocorreu com a Delzuite. Essa era uma realidade que não dizia respeito ao Acre, mas a própria sociedade ocidental da época, não havendo motivos pra pensar que abordar essa temática tenha colaborado para denegrir o passado acreano.
Pelo contrário, as cenas que vimos na TV deveriam ter levado à reflexão acerca das dificuldades que foram enfrentadas por mulheres de todos os tipos (em especial aquelas das camadas mais populares) em sua trajetória rumo à igualdade de direitos entre os gêneros. Uma conquista que na realidade é muito recente, com pouco mais de três décadas e nem sequer chegou a muitos cantões desse planeta tão problemático e desigual. Portanto, acho que a insistência no moralismo sob o qual foram analisadas as personagens femininas da primeira fase da minissérie, na pratica obscureceu uma excepcional possibilidade de nos encantarmos com a força dessas mulheres que ao longo da história sacrificaram suas trajetórias pessoais em nome de uma luta desigual.
Outra questão diz respeito aos avanços e lacunas da reconstituição histórica empreendida nesta produção. Pelo menos três elementos importantes merecem ser destacados como pontos positivos da minissérie. O primeiro diz respeito à reabilitação histórica da figura de Luis Galvez Rodrigues de Arias. Desde 1999 vínhamos retrabalhando esse personagem na tentativa de modificar o enorme prejuízo causado pelo monopólio do livro “Galvez, o Imperador do Acre”, na historiografia brasileira e acreana.
O Galvez ficcional (é importante que se enfatize) criado por Marcio Souza não passava de um bêbado irresponsável sem nenhum outro objetivo na vida que não fosse sexual ou financeiro. Ao passo que a experiência histórica acreana indicava um outro contorno para esse personagem. Uma configuração mais idealista, aventureira, quixotesca até, mas muito mais relevante do que daquele outro Galvez. Pois bem, como já disse, desde 1999 tentamos essa reabilitação histórica, o que pode ser facilmente constatado na revista “Galvez e a Republica do Acre” publicada pelo governo do estado naquele ano. Mas como santo de casa não costuma fazer milagre, quero crer que essa minissérie tenha dado uma efetiva e fundamental colaboração para uma nova compreensão do papel de Galvez na história acreana e brasileira.
O segundo aspecto positivo da minissérie foi a interligação das diversas fases históricas pelas quais passou a sociedade acreana, numa seqüência de acontecimentos reveladora de um sentido preciso. A história de lutas do povo acreano foi, portanto, evidenciada admiravelmente ao longo da minissérie. Uma luta que passou por diferentes momentos e condições, mas que resultou na caracterização do Acre como um espaço de resistência e conquista de direitos apesar de toda a opressão política e econômica a qual foi submetido ao longo do último século e meio. E em terceiro lugar penso ter sido muito positiva a aparição de alguns personagens populares e manifestações culturais características do Acre na minissérie. Personagens como Padre José (mesmo estando situado em um tempo distinto do real), Juvenal Antunes e Raimundo Doido que deram um colorido muito especial a toda a trama. O mesmo vale para cenas que retrataram os bailes dos seringais (incluindo os bailes das quatro bolas), a malhação do Judas (como descrito por Euclides da Cunha em seu famoso texto Judas Asvero), a aplicação da vacina do sapo Kambô, a Marujada e o mais recente Jabuti Bumbá.
Esses personagens e acontecimentos junto a um linguajar muito próximo daquele efetivamente praticado no Acre revelaram claramente a vantagem de uma minissérie escrita por uma autentica escritora acreana.
Mas não posso deixar de destacar ainda a importância da presença de Mestre Raimundo Irineu Serra na minissérie. O respeito e fidedignidade com que esse assunto foi abordado puseram em evidencia o necessário reconhecimento de um homem simples que em sua vasta sabedoria foi capaz de criar uma das principais tradições socioculturais do Acre: a doutrina do Daime. Uma nova religião que traz em si uma síntese original das contribuições indígenas, africanas e européias (nessa ordem mesmo) na formação de nossa sociedade e que ainda precisa ser melhor conhecida e compreendida para vencer os preconceitos a que continua submetida, em que pese os extraordinários avanços obtidos nos últimos anos.
Nesta linha de raciocínio devemos também destacar como pontos negativos da minissérie a ausência de outros personagens muito importantes da história acreana, como Euclides da Cunha, para citar apenas um exemplo. Mas principalmente a lacuna deixada pela ausência do movimento autonomista em suas várias etapas na minissérie. Não abordar a revolta autonomista de Cruzeiro do Sul em 1910, ou a importância da Legião Autonomista nos anos 30 e do Comitê Pró-autonomia dos anos 50 nos fez perder uma excepcional oportunidade de trazer esses episódios ao conhecimento das mais novas gerações de acreanos. O que é lamentável, mesmo compreendendo a impossibilidade de uma produção desse tipo abordar todos os aspectos e personagens mais importantes da história acreana.
Para terminar essa breve e despretensiosa avaliação (que um dia mereceria ser mais aprofundada) devo ressaltar a participação de muitos atores, atrizes e figurantes acreanos nas gravações. Foram centenas de figurantes na encenação dos combates da Revolução, diversos atores e atrizes no elenco de apoio da minissérie, sem deixar de lembrar da Karla Martins, Clarisse Batista e Brenda Hadad que representaram os acreanos com grande brilho e competência. Enfim, não resta duvida que a minissérie deixou, entre outras coisas, uma grande contribuição à tomada de consciência dos brasileiros em relação às especificidades sociais, culturais e históricas do Acre e da Amazônia. Além de ter sido muito legal ver jovens acreanos perguntando aos mais velhos se as coisas eram assim mesmo nos seringais e nas histórias de suas vidas. Um grande encontro de gerações que espero tenha fortalecido ainda mais a paixão que os acreanos sentem por sua história, mas isso só o tempo poderá revelar por completo.

sábado, 14 de abril de 2007

História social da borracha

Por Carlos Carvalho

Imagine-se o leitor um fotógrafo portando câmeras Nikon F3 e Leicas M e R com filmes Kodak Tri-X e Ilford HP5 inserindo-se nas entranhas da Amazônia brasileira para lá encontrar... outros brasileiros.

Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente, elabora o prefácio. Conta que Carlos foi para a capital do Acre, Rio Branco, para ficar três meses e lá permaneceu por quatro anos, conhecendo e reconhecendo, nos imponderáveis do extrativismo e no cotidiano dos seringueiros, a história real do país dos tristes trópicos onde vivem... brasileiros.

Pedro Karp Vasquez, o fotógrafo, também introduz o estudo social fotográfico que compõe o livro, tratando da "luz-cidez" das imagens em um cenário onde pulsam pessoas, trabalhadores, gente simples da extração do látex, em território que leva o nome de um herói nacional da luta dos excluídos pelos direitos humanos no Brasil: Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre. O fotógrafo prefaciador homenageia o fotógrafo engajado na sua relação com o Outro: os seringueiros, as famílias dos seringueiros, os amigos seringueiros e seus familiares, as gentes dali que vivem "das árvores e entre as árvores". A narrativa visual das pessoas no contexto e do contexto, da condição de trabalho, da extração da natureza, do látex, torna-se, para o autor, na história social da borracha, esse produto transformado no gesto da inventividade industrial que capitaliza a obra humana em sua progressividade civilizatória. O ato paradoxal exclui dos benefícios capitais seu agente primeiro, o seringueiro, em sua saga de trabalhar para sobreviver... no Brasil.

O próprio autor fotógrafo, engajado, solidário e... brasileiro, se incumbe de tecer significativas palavras introdutórias da história social da borracha construída como narrativa visual, concebendo uma foto narrativa da exploração comercial da borracha nativa da Amazônia. A leitura alude, nas minhas reminiscências, a imagens de uma árvore que sofreu um corte de onde escorre o látex. Eram livros de história do Brasil, da escola ginasial, em que os ciclos da economia do país eram mostrados aos estudantes como estruturas progressistas que construíram o país... Brasil. Há, nessas lembranças, referências aos seringueiros como personagens típicos brasileiros, como lembra Carlos Carvalho, referindo-se aos livros escolares do século passado, em que as imagens de blocos de borracha eram ajustadas, aos olhos dos leitores, às imagens da vitória do banqueiro conquistador, os barões da borracha, que empreenderam sua alma de negócios durante as conjunturas de guerras mundiais nessa inovadora matéria, conquistando, ao país, fortuna e progresso, como buscam comprovar as cartilhas didáticas exibindo fotos do patrimônio arquitetônico esplendoroso, que simbolizam o desejo de consumo dos homens do capital nas capitais... do Brasil.

Essa era a história oficial, que eu lia na época do ginásio e reconhecia como história do Brasil. Carlos Carvalho refere-se a esse determinismo educacional e pergunta aos brasileiros se não é esse o imaginário que persiste. Que olhares temos hoje, na atualidade dos tempos, dessa Amazônia paradoxal, que hospeda a cobiça dos homens na história de selvagerias naturais e "des-naturais", como a do massacre e a da escravidão de índios, de contatos nefastos, de migrações impostas de milhares de brasileiros vindos de regiões vizinhas, transformando-se em seringueiros escravos "pela dívida"? questiona Carlos. O que sabemos das lutas anônimas de resistência aos homens do poder?

A divulgação de atrocidades foi se colocando acidentalmente como uma tarefa de outro tipo de homens, das palavras, das letras, das imagens, da mídia, da ciência, da luta política, do engajamento social, da militância democrática.

Na luta contra o esquecimento ou apagamento que tanto acomete nossa memória social, as imagens nos trazem referências da condição de ser no âmago do território amazonense. A relação do homem com as árvores, diz Carlos, não é novidade para os brasileiros - a própria denominação de brasileiro recorre ao mito de fundação relacionado ao corte do pau-brasil como matéria para escambo e enriquecimento dos primeiros exploradores. As imagens que seguem levantam questões que nos deslocam de um lugar-comum, do conformismo ou da ignorância de não saber e não querer saber, como propõe Carlos Carvalho, de quem são os verdadeiros protagonistas das pequenas histórias da história da humanidade (p. 15).

Títulos temáticos anunciam, então, a lógica narrativa das fotos em encadeamento: A Chegada dos "Paulistas", Aqui tem Gente, O Sistema de Aviamento, O Projeto Seringueiro - Cooperativismo, Educação e Saúde. São imagens em preto-e-branco que mostram estradas, árvores, extração da borracha, pessoas, luzes e sombras, perfis e retratos dessa realidade social.

A essas imagens, seguem as legendas e uma breve sinopse do tempo e do espaço dos acontecimentos que as imagens testemunham.

Sem mais palavras, sugiro o acesso ao livro e a visualização das imagens como estratégia de participar de um processo de construção de memória coletiva sem os filtros dos livros didáticos que suprimem a possibilidade da crítica e do olhar reflexivo de uma história brasileira.

FONTE http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832006000100022

Conhecer a História para compreender o nosso tempo

Elian Alabi Lucci

Com o desenvolvimento acelerado do processo de globalização entramos na era do conhecimento e da criatividade. Essa passagem para a "sociedade do conhecimento" (para usar a expressão de Peter Drucker) deve colocar a pessoa no centro do mundo. E a sociedade do conhecimento precisa ter em seu âmago a educação da pessoa. Uma educação que aponta para a universalidade, exatamente porque a sociedade do conhecimento é uma sociedade de conhecimentos e é global - não só em sua moeda e em sua economia, mas em suas carreiras, em sua tecnologia, em suas questões básicas e, acima de tudo, em seus conhecimentos.

Assim a sociedade pós-capitalista, a sociedade do conhecimento necessita precisamente do oposto daquilo que é, afinal, propugnado por desconstrucionistas, pelas feministas radicais ou pelos anti-ocidentais. Ela precisa daquilo que eles rejeitam: uma pessoa educada para o universal.

A sociedade pós-capitalista necessita dessa educação aberta mais do que qualquer sociedade anterior e, nesse quadro, o acesso à grande herança do passado é um elemento essencial.

Segundo Peter Kreef, "Nosso mundo é um mundo sem heróis". Um país sem heróis - claro que não se trata aqui só (nem principalmente...) de heróis de armas, mas de todo tipo de heróis (aí incluídos os protagonistas do quotidiano) -, sem memória é um triste país.

Mas como manter a memória nacional? É exatamente através do estudo de sua História, do seu passado, de seus heróis, de seus comportamentos em determinadas situações.

Regine Pernoud, ao lembrar que o homem é também um animal histórico, indaga-se: "Mas como é possível interessar-se pela história na época em que os homens andam sobre a lua?". A resposta é simples, qual foi o primeiro ato realizado pelo homem quando se viu na Lua? Abaixar-se para apanhar uma pedra. O gesto ancestral. Para além de todas as definições, história é vida e o homem se define pela sua história: se uma pedra pode ter tanto interesse para ele, é porque ela é "signo da vida". A História é a busca do vivido, esse vivido através do qual traçamos nossa própria existência.

Por que é preciso conhecer a História do mundo e de seu país, das tradições sociais, culturais e políticas de um povo? Para que não sejamos levados - como é muito comum hoje em dia - a pensar com a cabeça alheia; e trata-se de conduzir e não de sermos conduzidos. Chesterton, diz que o homem não é verdadeiramente um homem enquanto não vê o mundo de pernas para o ar e de cabeça para baixo. Pode-se praticar esse exercício sem muita fadiga, estudando História.

Ao se familiarizar com outros tempos, outras épocas, outras civilizações, adquire-se o salutar hábito de desconfiar dos critérios de seu tempo: eles evoluirão, como outros evoluíram. É a ocasião de revisar, dentro de si próprio, o mecanismo de pensamento, suas próprias motivações etc. por confronto com o outro.

O estudo da História permite também avaliar melhor a noção de progresso. Geralmente nós fazemos uma idéia muito elementar do progresso.

Lewis Mumford, escreve que somos levados a pensar que se as ruas de nossa cidade eram sujas no século XIX, elas deveriam estar quinhentas vezes mais sujas seiscentos anos antes. Quantos estudantes acreditam piamente que o que aconteceu no século XIX, por exemplo, o trabalho das crianças nas fábricas, sempre existiu e que só as lutas de classe e o sindicalismo, no final do século XIX, liberaram a humanidade desta situação! Quando se tem uma educação histórica, o progresso (em geral) é uma clara evidência, mas também o é o fato de que não se trata jamais de progresso contínuo e uniforme. Na verdade, a humanidade avança em certos pontos, recua em outros: o impacto em nós produzido pela constatação de tal avanço deve ser o mesmo que ante a constatação de um retrocesso...

A História não fornece soluções, mas permite enquadrar corretamente os problemas. Ora, todos nós sabemos que um problema corretamente proposto já está meio resolvido.

Negligenciando a formação do sentido histórico, esquecendo que a História é a memória dos povos, o ensino forma desmemoriados. É relativamente freqüente o lamento de que nas universidades contemporâneas estejamos formando irresponsáveis, valorizando a fria formação técnica em detrimento da sensibilidade e do caráter. E, nesse quadro, deve-se observar que é grave também formar desmemoriados. Tanto quanto o irresponsável, o desmemoriado não é uma pessoa completa, nem um nem outro desfrutam do pleno exercício das suas faculdades, que é a única coisa que permite ao homem, sem perigo para ele e para os seus semelhantes, o exercício de uma verdadeira liberdade.

Ensino e Metodologia Crítica

As Ciências Sociais em nosso País passaram historicamente, dos anos 50 até aproximadamente 1970, por um processo de ensino voltado para a pesquisa empírica (experiência e observação), sem nenhum apoio teórico para os assuntos abordados.

A partir de 70, surgiu uma tendência - igualmente exagerada - a de descarregar no aluno as mais diversas informações estrututradas por modelos de análise, freqüentemente distantes de nossa realidade social.

Tanto uma como outra abordagem metodológica, não dá ao aluno condições para estabelecer relações entre a teoria e a prática. Assim elas contribuem para que as análises metodológicas se caracterizem ainda hoje pelo conservadorismo.

As diferentes Ciências Sociais (Antropologia, Geografia, Sociologia, Política...) da maneira como são ensinadas, distanciam o aluno da realidade e dos problemas da sociedade. A realidade social, devido a complexidade da nossa sociedade, exige no seu estudo, uma ação conjugada - e não compartimentada - das Ciências Sociais. E o que ocorre é que outros contextos - para além do particular enfoque da ciência em questão - tendem a ser desconsiderados.

Assim, em Geografia, ao priorizarmos "modelos" que não consideram o contexto histórico e social não permitimos ao aluno ultrapassar o nível superficial das nações que são estudadas. Uma metodologia crítica deve procurar dar ao aluno amplo contato com a realidade que o cerca. Para isto é importante que o aluno tenha consciência de sua dimensão espaço-temporal, para que possa questionar os processos de mudança social: ele deve ter consciência do processo que está vivendo, por exemplo: o significado e o alcance de estarmos situados na América Latina.

Outra necessidade na abordagem crítica das Ciências Sociais implica em que os principais acontecimentos sociais, econômicos, políticos e culturais do problema a ser estudado sejam tratados em unidade (por exemplo: A guerra do Contestado - ou a de Canudos - não podem ser compreendidas sem a análise do condicionamento dado pelo ambiente geográfico, tanto quanto pelo o contexto social em que ocorreram).

Para tanto é necessária a interdisciplinariedade, para que não se promova um conhecimento parcial e fragmentado do real. Concluindo, todo ser humano para produzir conhecimento, deve ser crítico, questionador e ter uma postura metodológica cujas técnicas de investigação sejam coerentes com a visão do mundo.

Fonte http://www.hottopos.com/videtur/elian.htm

quarta-feira, 11 de abril de 2007

REVISTA VEJA faz crítica ao Governo do PT no Acre


E agora, Viana?
Por : Leonardo Coutinho

A devastação no Acre, durante a gestão de Jorge Viana, foi maior do que se pensava.

O petista Jorge Viana governou o Acre por oito anos, de 1999 a 2006. Logo que chegou ao poder, percebeu que o discurso ambiental poderia lhe render projeção nacional e batizou sua gestão de "governo da floresta". No segundo ano de mandato, passou a alardear que havia contido o desmatamento em seu estado. Tornou-se um dos astros do petismo e aproximou-se do presidente Lula. Seu peso político aumentou tanto que, agora, mesmo sem mandato, disputa com José Sarney e Jader Barbalho quem apadrinhará o próximo superintendente da Sudam, a Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia.

A imagem de Viana como protetor da natureza, no entanto, está tão ameaçada quanto a mata que ele diz defender. VEJA teve acesso a um estudo encomendado pelo próprio petista que mostra que, nos seis primeiros anos de sua gestão, a velocidade do desmatamento no Acre triplicou e chegou à marca de 995 quilômetros quadrados em 2004. É como se uma área de floresta do tamanho de catorze campos de futebol fosse derrubada por hora. Pior: o estudo, feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), revela ainda que, de todo o desmatamento do Acre, cerca de um terço ocorreu durante a administração de Viana. O então governador recebeu as conclusões do estudo em agosto do ano passado – e as escondeu.

Em setembro de 2003, VEJA já havia informado que a devastação no estado aumentara no governo do PT. Viana se esforçou para desqualificar a reportagem. Alegou que os números apresentados estavam errados e escalou jornalistas pagos com dinheiro público para replicar sua defesa pelo país. Em seu estado, usou dinheiro do Erário para atacar VEJA nos jornais e TV locais. "No meu governo, o desmatamento só cai", jurava ele. Poderia ter-se poupado. O estudo do Imazon, feito com base em imagens de satélite, tem um grau de precisão inédito no país e confirma o diagnóstico da destruição. No Acre, entretanto, Viana mantém sua boa imagem, principalmente entre os onguistas. Sintomático.

Lá, nem os "povos da floresta" andam preocupados em manter as árvores em pé. No seringal Nova Esperança, em Xapuri, 36% da floresta dentro de sua área foi destruída. A Reserva Extrativista Chico Mendes está salpicada de pastagens. Fatos assim mostram que a falta de avaliações isentas e sem romantismo ameaça tanto a preservação ambiental quanto o crescimento econômico em um estado que já perdeu 11% de suas florestas e continua a ostentar alguns dos piores indicadores sociais do país.

FONTE: http://veja.abril.com.br/110407/p_070.shtml

NOTA À REVISTA VEJA

"Em respeito aos leitores da revista Veja, o Governo do Estado sente-se obrigado a esclarecer as informações apresentadas pelo jornalista Leonardo Coutinho na matéria publicada no último final de semana. Não é a primeira vez o jornalista busca atacar o ex-governador Jorge Viana. Em setembro de 2003, Veja utilizou dados preliminares do INPE para afirmar que na gestão de Jorge Viana teria ocorrido o maior desmatamento da história do Acre.
Depois de esclarecimentos, inclusive do próprio INPE, sete meses depois, a revista publicou nota reconhecendo o erro.
Na última edição de Veja, novamente o jornalista se apressa em afirmar, baseado em pesquisa do IMAZON - contrata pelo próprio Governo do Estado para servir de base à política ambiental - que o desmatamento do Acre aumentou na gestão de Jorge Viana, buscando desqualificar novamente os trabalhos em defesa da floresta no estado do Acre.
De forma apressada, faz uma soma simples das áreas desmatada nos oito anos do Governo da Floresta e chega à conclusão de aumento de 42% de área desmatada. Com este dado bruto e sem uma avaliação adequada, o jornalista decreta a suposta incapacidade da política praticada nos últimos oitos anos para conter o desmatamento no Acre.
Primeiramente, é preciso esclarecer que, para realizar uma avaliação mais precisa, devemos levar em consideração não o valor bruto de desmatamento, mas o valor do incremento anual e compará-lo com a média da Amazônia. O incremento do desmatamento no Acre, nos últimos oitos anos, foi abaixo da média da região. Tanto é assim que a contribuição do Acre no desmatamento da região é de apenas 3%.
A média baixa do ritmo do incremento do desmatamento do Acre é ainda mais significativa (0,40 % - média anual nos últimos oito anos), se levarmos em consideração que neste mesmo período no Acre, ocorreu um dos maiores investimentos públicos de toda a história com melhoramento da infra-estrutura rodoviária (asfaltamento da BR-317 e obras de pavimentação na BR-364), ampliação do crédito rural (de 89 a 98, R$ 56,4 milhões e de 99 a 2006 mais de 314,5 milhões), crescimento do rebanho bovino no mesmo período em 416% (de 900 mil reses para 2,4 milhões) e crescimento da população rural em 14,9%: mais de 24 mil pessoas buscaram a área rural. Mesmo com este incremento econômico, a interferência no ritmo do desmatamento foi menor que em outras regiões da Amazônia.
Foram criados planos de desenvolvimento sustentável para as áreas de abrangência das estradas pavimentadas: as áreas de unidades de conservação aumentaram mais que o dobro (2000 a 2006 houve ampliação de 2,7 milhões de hectares, um incremento de 105% na área de conservação). Foram criadas três florestas estaduais para manejo sustentável (85% das madeiras comercializadas hoje no Acre são manejadas).
A afirmação sobre o Seringal Nova Esperança e sobre a Reserva Indígena precisa ser melhor detalhada ao leitor. O Seringal Nova Esperança é uma área recentemente incorporada às unidades propostas pelo Zoneamento Ecológico onde o percentual de desmatamento de 36% refere-se à área desmatada antes de se tornar uma unidade de conservação. Em relação à terra indígena, é preciso dizer que ela foi criada há décadas como uma Colônia Rural Indígena com apenas de 200 hectares e com uma população de mais de 60 pessoas: cerca de menos de 3 hectares por pessoa.
A floresta é uma referência importante para o desenvolvimento econômico no Acre. É com ela que o povo aprendeu a ter um novo olhar na relação entre o homem e a natureza. Foi com a floresta que surgiram nossas maiores lideranças: Marina Silva, Chico Mendes, Wilson Pinheiro, Jorge Viana. É preciso que o Brasil saiba isso e que os comunicadores revelem essa verdade".
Binho Marques
Governador do Estado do Acre

Deputado Federal critica a Revista Veja

A REVISTA disse meias-verdades... "O deputado federal Nilson Mourão (PT-AC) defendeu o projeto de desenvolvimento do Governo da Floresta, liderado durante dois mandatos da Frente Popular pelo ex-governador do Acre, Jorge Viana. O pronunciamento do parlamentar foi motivado pela reportagem da revista Veja (edição 2003, de 11 de abril de 2007), assinada pelo jornalista Leonardo Coutinho. Na reportagem, o ex-governador é atacado “com meias verdades”, como mostrou o deputado. De acordo com Mourão, Coutinho e a revista não fazem uma avaliação completa da situação do desmatamento na região e induzem o leitor ao erro. “O jornalista afirma apenas parte da verdade porque não foi suficientemente verdadeiro quando omitiu que, no Acre, o ritmo de desmatamento é um dos mais baixos de toda a Região Norte”, disse ontem o deputado Nilson Mourão. A matéria tenta mostrar que o governo do Acre não deu a devida atenção às questões ligadas à defesa do meio ambiente, sem apresentar dados mais abrangentes da realidade amazônica. A revista tem se posicionando contrária às administrações petistas. “O jornalista não informa o leitor que o ritmo anual do aumento do desmatamento no Acre foi menor que a média da Amazônia nos últimos oitos anos que ele comparou. Isso deixa bem claro que o intuito é apenas desacreditar um governo que pautou suas atividades pela defesa do meio ambiente”, garante Mourão". Publicada no jornal Pg 20, do dia 10 de abril de 2007.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

A PESQUISA NAS CRÔNICAS DOS JORNAIS ANTIGOS DO ACRE

Por: Profª Maria Alzenir Alves Rabelo Mendes, Mestranda em Letras - Linguagem e Identidade (UFAC)
A motivação para a pesquisa sobre a produção textual do Acre, mais precisamente com as crônicas dos jornais antigos, reside na constatação de que o acesso à produção escrita no Acre ainda é bastante restrito. Daí a escassez de textos que possam ser utilizados como apoio didático nas aulas de Língua Portuguesa e suas Literaturas, bem como nos cursos de leitura e produção textual. Essa escassez é bem mais evidente quanto a leituras sobre as peculiaridades da cultura do Estado do Acre. Na ausência desse material, não se pode estranhar que um estudante acreano conheça mais sobre outros Estados brasileiros do que sobre suas próprias origens.
Uma grande parcela do alunado tem contato, pelo menos, na sala de aula, com a produção de escritores reconhecidos, nacionalmente, como Fernando Sabino, Humberto de Campos, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, e outros que tiveram suas criações literárias publicadas, a princípio em jornais, o que é comum às crônicas, e posteriormente em antologias, e em livros didáticos.
No caso do Acre, embora as crônicas também tenham sido publicadas nos jornais locais, é pouco provável que os estudantes saibam quem foi Antônio Carneiro Meira; Baxir Chaul ou Stelio de Amics; quem assinava as crônicas como “Zelinha”; “Zeferino”; “Zé do Barranco”, entre outros que escreviam para os periódicos da região. Pouquíssimos alunos, talvez, tenham lido as crônicas de José Alberto Mendes, José Chalub Leite, Adelino Moura, Francisco Dandão, Aluísio Maia, Antônio Stélio e outros que fizeram e ainda fazem jornalismo literário no Acre. E nós, professores, não podemos responsabilizar esses alunos por uma falta que reside no nosso “acomodamento” à conformação, apenas, de um conhecimento que vem de outras culturas e que trata somente delas.
Talvez, o nosso acomodamento se deva ao fato de que os livros didáticos, com os quais trabalhamos e as fontes de pesquisa que utilizamos, embora não contemplem os temas locais, já nos chegam prontas, e isso significa “meio caminho andado” para a atividade pedagógica. No entanto, compete a nós educadores, instigar o espírito de investigação no estudante para, assim, garantir a preservação da memória e o reconhecimento de nossa identidade cultural, a partir do legado dos antepassados.
Essa tarefa é possível, a princípio, através da localização e da coleta de material que nos permita revisitar a história e analisar os fatos sob o ângulo possibilitado pela diversidade de textos publicados em jornais. Na impossibilidade de coletar e analisar toda essa produção textual, concentraremos essa pesquisa nas crônicas que tematizam o Acre e sua gente.
O desejo de estudar as crônicas do Acre já era latente desde os primeiros trabalhos de pesquisa, os quais realizamos ainda no PIBIC e, posteriormente, no PNOPG , sob a orientação da Professora Doutora Olinda Batista Assmar, coordenadora do Projeto de Pesquisa Amazônia: os vários olhares .
Dentre os objetivos do trabalho iniciado, e ainda em andamento, encontram-se as primeiras medidas, no sentido de preencher os vazios existentes nas bibliotecas e nos centros de ensino, quanto a textos que tratem de temas locais. Até então, segundo a referida a Profª Olinda (2002) , os livros sobre a Amazônia “eram poucos (...) e, muito menos, sobre as manifestações literárias e culturais do Acre (...) Após avaliação do Projeto de pesquisa Amazônia: os vários olhares pelo comitê do CNPq/UFAC, foi iniciado o levantamento e a coleta de material que possibilitasse a descoberta do universo do amazônida a partir das manifestações culturais e literárias”.
O primeiro subprojeto foi desenvolvido pela bolsista Susy Andréa Araújo (1995-1996), intitulado A Produção Textual de 1900 a 1920 – manifestações literárias. Nesse trabalho, a ênfase maior foi dada à localização de acervos e à coleta textos. O segundo trabalho da pesquisadora visou à apreensão dos temas predominantes na poesia nos jornais de Xapuri. Em 1996, enquanto a colega concentrava seu estudo sobre os textos poéticos, iniciamos outro estudo, dando continuidade à pesquisa sobre os textos coletados dos jornais daquele município.
O resultado deste trabalho foi apresentado em seminários sob o título A prosa jornalística construindo a identidade do xapuriense - 1900 a 1984. O trabalho seguinte foi O Imaginário Xapuriense- Prosa Poética – 1907 a 1918, com a apresentação também em seminários.
A pesquisa sobre a produção textual dos jornais foi concluída no Aperfeiçoamento em Pesquisa com o subprojeto A Prosa nos Jornais de Xapuri, cujos objetivos visavam à organização de uma antologia comentada, contemplando informações biográficas sobre os autores.
O resultado desse estudo, publicado em forma de um Inventário: A produção textual oral e escrita de Xapuri é a síntese da pesquisa sobre a poesia e prosa daquele município, agrupada em um só trabalho, no volume I da obra As dobras da memória de Xapuri . O volume II é a antologia – A prosa xapuriense, na qual constam mais de trezentos textos em prosa, com notas explicativas e informações sobre os autores.
Na prosa que compõe aquela Antologia sobressaem-se as crônicas regionais, cujos assuntos têm fundo histórico, político, filosófico e humorístico, versando sobre assuntos do cotidiano como, as chuvas, o tédio e a solidão; sobre as “picuinhas politiqueiras”, desagravos disfarçados no jogo da ficção, sátira aos mandatários, aos coronéis de barranco, e outros tópicos, sempre em relação ao homem e ao espaço onde as crônicas foram escritas ou transcritas.
No decorrer dos anos, a prosa de cunho literário, que ocupou grande espaço nas páginas da imprensa acreana no início do século XX, cedeu lugar ao texto mais tipicamente jornalístico, como notas sobre: falecimentos; nascimentos; chegada ou partida de pessoas queridas, publicação de Balanço de firmas, etc. As crônicas humorísticas quase desapareceram; os anúncios de produtos importados cederam lugar aos de origem nacional; os eventos culturais, representações teatrais, concertos e recitais foram substituídos pelas de gincanas cívicas e atividades esportivas promovidas por pessoas do local.
A literatura, como arte mimética, imita pela palavra e recria a realidade conforme a concepção do espírito do artista, assim já a definiam os gregos, para quem a imitação não é mera cópia, mas a apropriação dos dados da realidade para a elaboração das abstrações que o indivíduo concretiza na forma de texto. Coutinho (1968) considera literatura como “um sistema vivo de obras agindo uma sobre outras e sobre os leitores, viva na medida em que estes a vivem, decifrando-a, aceitando-a ou deformando-a”.
Assim, ampliam-se as possibilidades de temas a serem explorados no texto literário, mesmo que por questões didáticas estes sejam classificados em duas grandes linhas temáticas: universal e regional. É também do autor a definição da temática universal como aquela em que predomina a linha introspectiva ou psicológica, que trata de "problemas de conduta, drama de consciência, indagações e motivações em busca de uma visão da personalidade e da vida humana.” Quanto à segunda, a temática regional, é definida como “uma arte que se vincula ao contexto histórico, geográfico e social, retratando a realidade em suas minúcias”.
Para o autor, a obra regionalista dá primazia aos assuntos relacionados à terra e ao homem na luta pela sobrevivência, focaliza o pitoresco e as peculiaridades de cada região. A Literatura também é definida como a expressão da sociedade, dos grupos que a compõem, de seus valores, aspirações e reflexões. Dessa ótica, o texto de opinião será também literário, uma vez extrapolada a objetividade característica do texto de informação imediata. Mas partimos da preceptiva de que a informação jornalística acaba onde começa a literatura de sugestão.
O jornalista pauta-se na pesquisa sobre a realidade concreta, prima pela linguagem objetiva, numa perspectiva de consumo rápido, e privilegia os conteúdos que exigem a mínima variedade formal. Ainda que, conforme Reis (1997, 19-40) as fronteiras entre o literário e o não literário estejam cada vez mais tênues pela integração entre cultura e literatura.
E esse processo tem sido observado ao longo da história quando autores que versam sobre cultura são inseridos no rol dos propriamente literários. Dos textos de cunho literário, publicados em jornais, a crônica moderna, híbrida e transitória, é o texto que, pela própria origem da palavra do grego Krónos (tempo), acompanha a sucessão dos episódios diários, agora captados pela “lente” do observador que depura os fatos com sensibilidade artística, conferindo ao texto efeito estético no modo como re-cria a realidade pela reordenação de signos polivalentes.
É nessa instância que a crônica torna-se perene, sobrevive à efemeridade do texto jornalístico e passa a integrar os compêndios das obras imperecíveis.
Segundo Moisés, (1998) , a crônica, como um gênero intermediário “tenderá ou para o lirismo ou para conto, que traduzem ou a elevada subjetividade na transposição do acontecimento, ou a sua dramatização, que confere ao cronista um papel de espectador. Em ambas as situações, para que a crônica ganhe foros estéticos, há de prevalecer o poder de recriação da realidade sobre o de mera transcrição”. O autor argumenta que “fora daí, a crônica vai envelhecendo à medida que o evento determinante se distancia no tempo, tragado por outras ocorrências igualmente rumorosas e passíveis de gerar equivalentes crônicas.”
No entanto, como os gêneros literários evoluíram, a crônica também evoluiu através do tempo e adquiriu novos traços, o que possibilitou o surgimento de novas tipologias. (Wellek e Warren, 1971). As crônicas são textos que possibilitam leituras plurissignificativas pela linguagem figurada e pelo uso equilibrado de metafóras sugestivas. Nelas, a descrição subjetiva, a adjetivação intencional expressa o juízo pessoal, no sentido de valorar ou de depreciar certas personalidades de destaque do passado ou contemporâneas à escrita do texto. Nas crônicas modernas são freqüentes o uso de chavões, de ditos populares e expressões coloquiais com um toque de humor. Mas o humor não é gratuito.
Muitas vezes depura a alma do homem, induz o leitor a uma nova maneira de encarar o assunto que provocou o riso e a refletir sobre o seu estar no mundo (Bergson, 1940, 100). Como um gênero misto, às vezes, adquire tom poético, ou aproxima-se do artigo e do ensaio. Em síntese, é um meio-termo entre a Literatura e o jornalismo. (Tavares, H., 1996, 123). Este mantém estreita relação com a Literatura, uma vez que ambos refletem as diferentes concepções de vida, existentes em um povo. Além de informar, influir e transformar a mentalidades, os jornais constituem-se em acervos plenos de material para a linha de pesquisa Memória e Literatura Cultural.
A Professora Alice Campos Moreira reconhece a importância de se “preservar, recuperar e editar textos fundamentais para desenvolver conhecimentos históricos, teóricos e críticos. (...) a função que desempenham na preservação da memória daqueles periódicos que tiveram e têm papel destacado no desenvolvimento da literatura brasileira. Nos últimos 10 (dez) anos, os professores pesquisadores têm encontrado nos jornais uma fonte a mais para os estudos culturais. A Professora Drª Ivia Alves , afirma: “por experiência própria, constatei que só se pode resgatar as idéias veiculadas no lugar acompanhando os jornais e revistas específicas. E elas são inúmeras.”
A pesquisadora Carla Patrícia Santana reitera o posicionamento da Professora Ivia. Segundo ela, os textos recuperados de periódicos “permitem discutir as idéias de um intelectual, que não se ateve apenas à literatura mas também à educação e à implementação de uma Universidade pública.(...) é uma maneira de “cuidar da memória” dos que se foram e que contribuíram na construção da nossa história coletiva, neste caso específico, da nossa história literária e cultural.
O Professor Rildo Cosson , objetivando explicitar a inserção do Projeto Literatura, Jornal e Cultura: Autores Pelotenses – 1851/1889, no âmbito dos estudos de história literária, define os princípios que norteam as pesquisas que visam a recuperação de textos em periódicos.
O professor prioriza três aspectos para o que ele denomina “petição de princípios”: 1- O passado como memória - (...) o papel da memória nas reivindicações de grupos ou setores das sociedades globalizadas pelo reconhecimento de suas especificidades; 2- Do cânone ao banco de dados: a pesquisa da memória – (...). A certeza de que a memória cultural precisa de documentos para se sustentar leva o ímpeto revisionista a ser substituído ou complementado por uma preocupação preservacionista; 3. Uma alternativa para a leitura da memória cultural: o polissistema literário – (...) ampliar seu horizonte para além das questões envolvendo o cânone, mesmo que esse resgate não deixe de revelar como formamos nossa memória, o que esquecemos, o que apagamos, o que inventamos. Os resultados alcançados nas pesquisas já realizadas em Literatura e memória cultural nos permitem enveredar mais por esse trilho e resgatar, através das crônicas, publicadas ou não em periódicos, aspectos culturais da vida do acreano até então não contemplados na literatura disponibilizada aos estudantes e a outros leitores. Sabemos que tanto é possível como é urgente o estudo das produções literárias do Acre para que sejam integradas aos compêndios culturais, de natureza estética, histórica e/ou didática.
É preciso garantir o diálogo permanente entre o passado, comunicado pelo escritor, e o presente cada vez que o leitor recepcionar o registro escrito, possibilitando, desse modo, a preservação da memória e o reconhecimento da identidade regional, pela linguagem e pelos valores nela sugeridos. A escrita de uma região tem como foco principal os temas, ali tratados, muito mais pela natureza dos temas do que pela natureza do gênero, sem relegá-lo ao descaso, uma vez que é através dele, enquanto forma, que o tema é exposto e possibilita a interação entre o “desbravador” do texto e o universo desvendado.
Nesse sentido, o escritor acreano Jorge Tufic (1892), em sua série de Ensaios sobre a Literatura Amazonense, defende que: “uma pesquisa desse gênero, levada a efeito (...)dará aos estudiosos e produtores de literatura, recursos inéditos de linguagem, os quais, aliados à temática, poderão conferir existência verdadeiramente regional aos textos de sua autoria”. E como bem diz de Márcio Souza (1994), “a História da Amazônia precisa ser escrita o mais urgentemente possível, e por autor ou autores da região.” Embora não seja esse o nosso objetivo, entendemos ser tarefa do estudioso buscar a compreensão sobre como se deu a percepção e a condensação, através da escrita, de um dado momento na história de um povo.
No que se refere à atividade jornalística no Acre, esta teve início paralelamente à formação da sociedade e foi sustentada pela economia do extrativismo gumífero. Calixto, et al (1985, 166) observam que “no caso do Acre, jornais surgiram mesmo antes de esta região ser incorporada ao Brasil, com o “El-Acre” (1901-1902), cujo papel era divulgar o pensamento do governo e dos capitalistas bolivianos.
Os autores confirmam a presença de homens letrados na região. Porém, as razões que os moviam ao jornalismo eram alheias aos interesses da maior parte da população.
Mas a crônica tem sua presença marcada antes mesmo do surgimento da imprensa na região,como um registro de acontecimentos em ordem linear, foi a forma de documentação mais usada pelos primeiros exploradores da Amazônia, que dotados de veia poética imprimiram uma visão subjetiva aos relatos de viagens. Assim, o documento dos fatos assumiu outras facetas do gênero como a fusão entre a realidade e a fantasia.
Quanto aos cronistas, aventureiros e cientistas, Márcio Souza (1994) afirma que muitos desses identificaram-se com a região. O autor cita alguns exemplos, como: “o Bispo João de São José Queiroz deplorou o estado em que os povos indígenas se encontravam em 1761; (...) Charles Frederick Hartt (1840-1878) escreveu uma síntese etnográfica da Amazônia; (...) Euclides da Cunha (1866-1909), escreveu um dos mais contundentes textos de denúncia da terrível exploração a que eram submetidos os seringueiros”.
As crônicas dos jornais impressos, diferente dos relatos dos primeiros viajantes, têm outra conotação: serviram como veículos para o extravasamento da frustração daqueles que investiram na independência do Acre. Em Xapuri , as crônicas humorísticas tiveram seu ponto alto. Através delas, podemos perceber a presença de grupos dominantes, ideologicamente opostos, e separados pela diferença cultural. Há crônicas em que os escritores satirizam os “Coronéis-de-Barranco”, empedernidos pelo poder do “ouro negro” (a borracha).
Dessa fase, a série “Riscados” de Zé do Barranco, o humor é feito sobre os seringalistas, sem instrução, expostos a gafes, viajando de primeira classe nos navios da Iloyd: “... reclamavam de tudo porque tudo pagavam com seu dinheiro. Supunham que isso era chic e constituía um aprova de civilidade...” (O Acre 1913, p.2) Em outras, como as da série “Fitas”, assinada por de K. Listo, no jornal Alto Acre (1913-14), as questões municipais, a inconstitucionalidade das Intendências nomeadas no Acre, os impostos, a administração pública e a relação entre os seringueiros e seus representantes são tratados com boa dose de ironia e humor.
Na série, publicada também pelo jornal Alto Acre (1913-14), entitulada “Nossos Antigos Bons, Burros e Bravos” de J. Brígido, escritor da Academia Cearense de Letras, o autor satiriza os “Coronéis-do-Sertão”, ricos, poderosos, ignorantes e esbanjadores, podendo-se estabelecer um paralelo entre eles e os “Coronéis-de-Barranco” do Acre.
Surgem então questionamentos quanto às razões da sátira. Seria a frustração com a política local ou com fato dos intelectuais da imprensa estar subordinados, por motivos econômicos, àqueles homens rudes, mas que exerciam poder sobre os homens das letras? Por que então satirizavam os “coronéis”mantenedores dos jornais? Outras indagações dizem respeito à natureza das crônicas: São históricas? Folclóricas? Reflexivas? Lúdicas? Expressam os valores, as crenças e os costumes do acreano de forma a desvendar-lhe a identidade cultural? Mantêm relação com o contexto local, de modo a possibilitar o resgate e da memória cultural? Que temas predominam e que fatores determinam a recorrência de alguns deles nos textos em estudo? A linguagem é acessível, representa o falar regional ou restringe-se a um grupo intelectualizado? Ainda: Qual a contribuição do escritor/jornalista para a cultura local? Quem eram / Quem são? De onde vieram / Que influências receberam? Essas são questões que somente uma pesquisa criteriosa poderá responder. E é pouco provável que em apenas dois anos de mestrado cheguemos a elucidá-las.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

O “amazonismo” ou o lugar dos povos indígenas na historiografia acreana

Por: Prof° Dr. José Pimenta (UNB)
Além de reproduzir e participar da construção dos sentimentos patrióticos e nacionalistas que permitiram a “invenção do Acre” e sua incorporação ao Brasil, a historiografia oficial veiculou e continua veiculando vários mitos sobre a região amazônica e seus primeiros habitantes.
A natureza e os povos indígenas que a habitam continuam servindo de palco de projeção para os mitos ocidentais sobre a Amazônia e sua alteridade humana. Esses mitos são bem conhecidos na literatura antropológica e foram sistematizados no trabalho de Gondim (1994). O objetivo, aqui, não é detalhar a concepção ocidental sobre a Amazônia e as populações indígenas, mas apenas expor algumas de suas características, mostrando como elas aparecem na história regional e nos ajudam a pensar o lugar atribuído aos povos indígenas pela historiografia acreana.
Como o “orientalismo” de Said (1996), poderíamos definir o “amazonismo” como um conjunto de idéias e de discursos, produzidos pelo imaginário ocidental sobre a Amazônia e as populações nativas, destinado a viabilizar seus interesses políticos e econômicos. Como espaço imaginado pelo Ocidente, o “amazonismo” partilha muitas características com o “orientalismo”. Todavia, enquanto Said nos apresenta um Oriente construído de maneira negativa por um Ocidente hegemônico, o “amazonismo” constitui um campo ambíguo, catalisador de imagens e de discursos contraditórios, que podem ser mobilizados para servir interesses muito divergentes.
A concepção ocidental da alteridade enraíza-se na Grécia Antiga, momento onde se estabeleceu uma dicotomia inicial entre o “civilizado” e o “bárbaro” que serviu de modelo para a apreensão do “Outro” nos séculos seguintes.[1] Na história européia, o Renascimento foi uma época-chave de transição entre o mundo medieval e a modernidade.
O sistema copernicano e a chegada ao “Novo Mundo” questionaram profundamente a cosmografia e a cosmologia da Idade Média, baseadas num mundo fixo e ordenado pela vontade divina (Woortmann 1997a). Nesse contexto de incertezas, as primeiras informações sobre a Amazônia e seus habitantes apareceram ao mesmo tempo como a transposição de velhas imagens sobre a alteridade, atualizadas e aplicadas à nova situação, e como fonte de inspiração para novas utopias.
Primeiras testemunhas da Amazônia e de seus habitantes, os relatos de Carvajal ([1542] 1941) e de Acuña ([1641] 1941) combinaram o fantástico e o exótico e edificaram as bases do “amazonismo”: mito das Amazonas, inferno verde, Eldorado, seres canibais, nobre selvagem, etc. A Amazônia e seus primeiros habitantes concentraram e continuam concentrando todos os sentimentos e as fantasias ocidentais.[2]
Símbolo de riqueza e miséria, de medo e esperanças, de sonhos e pesadelos, de futuro e passado, de inferno e paraíso, a alteridade é o espelho invertido do Ocidente e é manipulada conforme os interesses em jogo. Essas imagens contraditórias acompanharam e informaram a conquista da América e o encontro com as populações indígenas. Além de legitimarem a ocupação e exploração econômica, os mitos também serviram a sustentar os interesses políticos e ideológicos da Europa.[3]
Guiados pelo racionalismo cartesiano, os naturalistas do século XVIII e XIX multiplicaram as expedições científicas na Amazônia e tentaram se emancipar do universo fantasmagórico e das interpretações bíblicas dos primeiros viajantes. Todavia, a Fé na ciência emergente não revoluciona o discurso europeu sobre a alteridade.
Os novos métodos mantêm os mesmos objetivos de conquista e são apenas uma outra versão do imperialismo ocidental (Pratt 1992). Assim, mesmo apontando a diversidade nativa, La Condamine, por exemplo, foi seduzido pelo fantástico, pelo mito das Amazonas e apresentou as características do “homem americano”. Inferiores ao europeu, o índio é um “homem natural” vivendo na infância da humanidade: "abandonado à natureza, privado de educação e sociedade, pouco difere das bestas" (La Condamine [1745] 1944: 45).[4] Enquanto o explorador francês ainda acreditava na civilização dos silvícolas, para Spix e Martius, que viajaram pelos rios Purus e Juruá, as populações indígenas são seres decadentes destinados a desaparecer: ...uma raça de gente que, não por orgulho, mas por indiferença e indolência, detesta todas as peias duma civilização (…), temos de inclinar-nos à conclusão de que os índios não suportam a cultura mais alta que a Europa lhes quer inocular, e que a civilização progressiva, elemento vital da humanidade florescente, mesmo os destrói, como um veneno letal, e de que eles, assim como muitos outros seres da natureza, parecem destinados a decompor-se e sair do número dos vivos, antes de terem alcançado o mais alto grau de desenvolvimento, cujo germe está neles implantado.
Consideramos, por conseguinte, os homens vermelhos, um ramo atrofiado, no tronco da humanidade, destinado a apresentar apenas tipicamente quase uma forma física de certas propriedades que fazem parte do ciclo, ao qual o homem está sujeito como criadora natural, porém incapacitados de produzir as altas flores e frutos da Humanidade. (Spix e Martius [1823-1931] 1981: 47-48) Essa separação entre cultura e natureza é uma característica estrutural do pensamento ocidental sobre a alteridade. Latour (1991) mostrou que, na Europa, a autonomia progressiva da ciência a partir do século XVI levou à afirmação da “Constituição moderna” baseada na ilusão da “Grande Divisão” entre, de um lado, as sociedades ocidentais que separaram a cultura da natureza e, de outro, as sociedades não ocidentais vivendo em “coletivos de natureza-cultura”.
A originalidade do trabalho de Latour consiste em mostrar que toda sociedade humana é um coletivo composto de cultura e natureza e que a “Grande Divisão” que funda o sistema de representações do mundo do Ocidente é ilusória. Apesar das sociedades ocidentais jamais terem sido modernas, elas continuam baseadas na ilusão dessa distinção radical entre cultura e natureza. A idéia da “Grande Divisão” latouriana também se aplicou à Amazônia e aos povos que a habitam e nos ajuda a pensar a versão acreana do “amazonismo”.
Os trabalhos antropológicos mostram que, para as sociedades indígenas, a natureza é socializada e faz parte da cultura, não existindo uma separação radical entre esses dois termos.[5] Contrariamente as sociedades ocidentais que vivem na ilusão da modernidade, podemos afirmar que os povos indígenas da Amazônia formam sociedades “não modernas” no sentido de Latour. Ora, essa ausência de modernidade é considerada, geralmente, no pensamento ocidental como uma falta de civilização.
Do mesmo modo, para o Ocidente, a Amazônia é vista, por essência, como um espaço natural, ou seja, um espaço virgem de cultura que deve ser explorado e “civilizado”. Nessa concepção, as populações indígenas se confundem com seu habitat natural. Como a Amazônia, os povos indígenas que a habitam pertencem ao reino da natureza e sua incorporação na cultura passa, necessariamente, pela obra civilizadora.
Embora inexplorados, os rios Purus e Juruá cativaram o imaginário europeu desde os primeiros séculos da conquista. A capital do Império Inca, Cuzco, foi considerada a fonte desses dois grandes rios opulentos de riquezas: ouro, salsaparrilha, plantas medicinais, tartarugas, peixes, etc. Suas margens eram o habitat natural de tribos fantásticas que protegiam seus tesouros e cuja ferocidade era temida pelos brancos: Rios enigmáticos, envoltos nas malhas da lenda, impenetráveis ao homem branco temerosos da ferocidade dos silvícolas, habitantes e guardiãs de suas margens. É que a tradição da crônica regional, desde época bastante remota, os apontava como o reino de índios bárbaros e de tesouros salomônicos.
No Purus, diz a lenda, havia índios gigantes que se enfeitavam com folhas de ouro, outros que penduravam argolas desse metal no nariz e nas orelhas. A primitiva geografia do Purus e Juruá foi uma geografia de mitos: no primeiro a nação dos gigantes, no segundo o país dos anões e dos homens caudados. (Tocantins 1979 105) Se essas imagens fazem parte da lenda da região, o ouro acreano materializou-se no leite vegetal no final do século XIX. Na historiografia do Acre, apesar do interesse apontado por alguns autores como Castello Branco (1950), a diversidade nativa se confunde, geralmente, com a natureza a ser explorada ou é apresentada como um estado primitivo de humanidade.
Antes da epopéia da borracha e da chegada dos seringueiros, a região acreana é tida como não tendo história. Alguns títulos da historiografia regional ilustram perfeitamente essa idéia: “A formação histórica do Acre” (Tocantins 1979); “O último oeste: A conquista do Acre” (Oliveira 1992), “A conquista do deserto ocidental” (Costa [1973] 1998); “Acre: Uma história em construção” (Calixto 1985).
Para a história oficial, o povo acreano é formado pelos seringueiros cuja tarefa é de domesticar a natureza e os índios que fazem parte dela. A região apresenta-se como uma “terra virgem”, um “deserto” onde o imaginário do inferno verde se mistura às esperanças do Eldorado; a “última página, ainda a escrever-se, do Gênese” nas palavras de Euclides da Cunha.
O Acre foi obra dos seringueiros, heróis anônimos, desesperadamente instalados numa região hostil mas promissora. Com audácia e bravura, o extraordinário nordestino penetrou laboriosamente a selva, desafiando a natureza e as flechas envenenadas dos “índios selvagens” para conquistar palmo a palmo o território e integrá-lo à nação. Como o bandeirante, o seringueiro deflorou a floresta e domou a natureza caótica. A terra é, naturalmente, desgraciosa e triste, porque é nova. Está em ser. Faltam-lhe à vestimenta de matas os recortes artísticos do trabalho (…). Há alguma coisa extraterrestre naquela natureza anfíbia, misto de águas e de terras, que se oculta, completamente nivelada, na sua própria grandeza.
E sente-se bem que ela permaneceria para sempre impenetrável se não se desentranhasse em preciosos produtos adquiridos de pronto sem a constância e a continuidade das culturas. As gentes que a povoam talham-se-lhe pela braveza. Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na.
O cearense, o paraibano, os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores empresas destes tempos. Estão amansando o deserto. E as suas almas simples, a um tempo ingênuas e heróicas, disciplinadas pelos reveses, garantem-lhe, mais que os organismos robustos, o triunfo na campanha formidável. (Cunha [1909]1998: 88-89) De forma semelhante, o seringueiro civilizou o índio. No momento da conquista do Acre, as populações indígenas são vistas como um obstáculo à exploração da borracha. Quando é apontada pelos autores, a presença nativa é apenas considerada como um freio suplementar ao avanço inevitável e benfeitor do “Progresso” e da “Civilização”.
Para os índios, o contato com os seringueiros traduziu-se numa forte queda populacional e na extinção de vários grupos. Se os povos mais vigorosos resistiram corajosamente à conquista de seus territórios, seus atos reforçam geralmente a grandeza e o heroísmo dos colonizadores.
A diversidade das sociedades indígenas e a riqueza de suas culturas são geralmente ocultada ou mencionada en passant.[6] Os índios em si não atuam diretamente na “invenção” do Acre. Mesmo quando considerados humanos, os povos indígenas continuam fazendo parte da natureza. Com a chegada dos seringueiros, os povos “sem história” se tornaram apenas objeto de uma história que se constrói sem eles ou sobre eles, raramente com eles.
Mal inevitável mas superável, o destino do índio é a “civilização” ou o extermínio e uma dicotomia se estabelece rapidamente entre o índio “civilizado” ou “manso” e o índio “brabo”. Enquanto os “mansos” integram o cativeiro do seringal na categoria generica de “caboclo”, os “brabos”, após serem massacrado e perder suas terras são integrados à cultura local como folclore ou símbolo da gloriosa conquista do povo seringueiro.[7]
Nas últimas décadas, o desenvolvimento dos estudos de arqueologia e de etnohistória contribuíram fortemente para rever a imagem da Amazônia como uma “terra virgem”, ou exclusivamente habitada por pequenos grupos isolados, e mostraram a amplitude do genocídio das populações nativas desde os primeiros séculos da conquista européia.[8]
Como a Amazônia de uma maneira geral, o Acre era o habitat de uma grande diversidade de povos. Segundo Calixto (1985: 16), cerca de 60 mil índios representando uns 50 grupos étnicos viviam na região acreana no início do século XIX. As correrias organizadas pelos seringueiros brasileiros contra os índios foram freqüentemente subestimadas pelos historiadores brasileiros que atribuem geralmente as mortes maciças de nativos aos caucheiros peruanos.
Dizimados pelos massacres e as doenças, muitos grupos foram extintos, outros encontraram refúgio nas cabeceiras dos rios, a maior parte de contingente nativo foi, no entanto, incorporada à economia extrativista da borracha, vivendo sob domínio dos patrões brancos até a década de 1980.
Como seringueiros, para a história oficial, os índios do Acre se dissolvem na categoria genérica de “caboclo”. Como mostrou Cardoso de Oliveira no seu trabalho com os índios Tikuna do Amazonas, a identidade “caboclo” é essencialmente uma identidade negativa imposta pelos brancos e incorporada pelos índios (Cardoso de Oliveira 1976: 14-20; 1981:77-96).
Se ele se distingue do “brabo”- o índio “selvagem” com traços animalescos-, o “caboclo” acreano é caracterizado por um conjunto de atributos negativos (ladrão, preguiçoso, traidor, etc.) que marcam sua inferioridade em relação ao branco (Valle de Aquino 1977).
Mesmo “civilizados” ou “amansados”, através da imagem do “caboclo”, os índios continuam considerados como representantes de uma sub-humanidade. Nos seringais, muitas populações indígenas sobreviventes partilharam um destino funesto com os seringueiros nordestinos, seus inimigos históricos. Na condição de mão de obra servil no sistema escravista e paternalista da borracha, os índios acreanos reprimiram durante décadas sua identidade étnica e continuaram sofrendo os preconceitos da sociedade envolvente.
De uma maneira geral, considerando o lugar atribuído ao índio pela historiografia acreana, podemos dizer que a “questão indígena” foi um detalhe na conquista e na integração do Acre ao Brasil. Exterminados, “civilizados” ou isolados em áreas remotas, cujas riquezas ainda não haviam sido cobiçadas, durante a maior parte do século XX, os povos indígenas acreanos desapareceram de uma história oficial que nunca os considerou como atores.
Símbolo dessa invisibilidade da questão indígena, a FUNAI começa a atuar realmente na região apenas em 1975. Até essa data, as raras viagens de funcionários do SPI, ligados à Ia Inspetoria Regional de Manaus, legitimaram os patrões seringalistas e alguns políticos locais como representantes do órgão. Até à intensificação das políticas desenvolvimentistas a partir da década de 1970, as instituições governamentais e importantes segmentos da sociedade acreana desconheciam a existência de populações indígenas no Estado (Valle de Aquino e Iglesias 1999: 6).
....... [1] Ver por exemplo Bartra (1994) e Woortmann (1997b) [2] O caso dos índios Yanomami talvez seja o mais ilustrativo. O discurso exotizante construído sobre esse povo indígena percorre os séculos e é um exemplo revelador das contradições e ambigüidades do imaginário ocidental sobre a alteridade (Smiljanic 1995). [3] Melo Franco ([1937] 1976) lembra, por exemplo, o uso das imagens do “Nobre Selvagem” por alguns filósofos como Montaigne ou Rousseau para caracterizar uma sociedade mais justa e o novo ideal da Revolução Francesa. [4] Essa concepção dos índios como “homens naturais” também se encontra na obra do naturalista português Alexandre Rodrigues Ferreira ([1783-92] 1974). [5] Sobre as relações entre as populações indígenas e a natureza, ver por exemplo a etnografia de Descola (1986) sobre os Achuar (Jívaros) da Amazônia equatoriana. [6] Apesar de sua obra conter vários estereótipos sobre os povos indígenas acreanos e participar da construção do “amazonismo”, cabe notar o interesse de Castello Branco (1950) em apresentar a diversidade nativa da região. [7] Caso dos Nauá (ou Nawá), por exemplo, cuja história é fascinante. Esse grupo da família etnolingüística Pano vivia nas proximidades da atual cidade de Cruzeiro do Sul, também conhecida localmente como “a Terra dos Nauá”. Valorosos guerreiros, os Nauá resistiram com as armas à penetração dos seringueiros até seu “extermínio oficial” que aconteceu, segundo a historiografia regional, no final do século XIX e início do século XX. Durante as décadas que seguiram o “extermínio” desse povo indígena, a sociedade cruzeirense fez do nome “Nauá” um símbolo da cultura e da identidade local. Existe, hoje, em Cruzeiro do Sul, o teatro dos Nauá, o café nauá, o guaraná nauense, etc. Imprevisto e ironia de uma história mal contada, depois de um século de silêncio, os Nauá “reapareceram” no ano 2000 no Parque Nacional da Serra do Divisor! Exemplo acreano de povo indígena “remanescente”, a presença dos Nauá vivos, que reivindicam hoje a demarcação de suas terras do órgão indigenista, causa muitas polêmicas envolvendo vários atores: FUNAI, IBAMA, CIMI, ecologistas (S.O.S. Amazônia), antropólogos, políticos, etc. Sobre esse assunto, ver as matérias “Grande surpresa no final do século: reaparecem os índios Nauá” (Jornal Voz do Norte, edição semanal de 11 a 18 de agosto de 2000, página 11) e “Resquícios de uma civilização” (Jornal Página 20, edição de 16 de agosto de 2000, página 7). [8] Ver, por exemplo, Roosevelt (1993) ou Porro (1996).